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Epifania do ser

08 . dezembro . 2014

A fugacidade da vida a leva a outros tempos, outras realidades. Acomete como chamas no concreto gélido, a tornando um cristal impenetrável aos olhos da pequena garota que saltita pelas ruas. A felicidade ingênua encanta a perspectiva do eu-lírico. Uma nostalgia a toma, fazendo pensar em todas as coisas que já viveu e deixou de viver. Foram tantas. Saberia nomeá-las? A indefinição dos cacos espalhados pela areia da praia não deixa olhar ao horizonte, perceber quão belas são suas ondas a vaguear por um rumo indefinido. Livre. Os desencontros amorosos a faz notar. Percebe o quanto todos estamos sujeitos à transitoriedade do tempo. Ele nos orienta como um comandante de trem, sem perguntar se queremos pular enquanto corre pelos trilhos intensamente. A rapidez dá vertigens, a angústia do incerto nos move a voltar-nos para a própria interioridade. Ela existe? Talvez seja um assunto para outro momento de vida, não agora, não estava preparada para tamanho golpe. Agora precisava arrumar os papéis, organizar as ideias para o juízo final que ocorreria no dia seguinte. Esses infinitos testes de sobrevivência ainda a deixaram desnorteada de vez. No frenesi da ansiedade, se depara com a janela aberta. Seu olhar percorre e se depara com uma bela joaninha a se deleitar na forma de uma flor. O carpe diem parecia tão simples, para que preocupações? Em momentos tão banais, a razão parecia ser definida, conseguia vislumbrar uma estrada a frente que o pequenino inseto tentava seguir. A chuva vem. Intenção atrapalhada, se acolhe por entre as flores, sorri e adormece. O olhar para a natureza desanuvia o presente, permite olhar para a realidade sem culpa. Emerge em si mesma. Sem fim, nem começo, apenas por ser.

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A lucidez do amor

01 . dezembro . 2014

Seu amor foi em mim como o efeito de uma bebida alcoólica. No começo, as minhas sensibilidades não foram afetadas, o humor continuava o mesmo, tive aquela falsa sensação de controle, não era tão grandioso a ponto de abalar meu equilíbrio, afetar minhas emoções, seria só mais um momento bom. As doses não pararam. Vibrações mornas subiam com o meu sangue ao circular pelo meu corpo, a percepção ficou um pouco fraca, estava mais suscetível a mudanças, a presença era mais marcante, começava a dominar a maneira como eu acordava, lembrava nos pensamentos na hora de olhar as estrelas. A gravidade? Caminhava como a brisa da manhã, sem pressa, curtindo o movimento de cada folha ao cair rapidamente dos galhos seivosos. Vontade de mais. Brios menos silenciosos, alguém me chamava como quem vai à luta, com toda a alma, pronta para enfrentar o que for, os sentimentos eram fortes demais pra serem ignoradas, por esse motivo valia. Prevalecia o cheiro, o anseio incessante de dançar, se jogar, sem medo de encarar um precipício à frente, ao som da música, alucinante. A visão já era obscura e o tato era muito sensível ao toque, pulsos intensificados pela substância tóxica que caminhava entre minhas curvas, entre as fendas do balanço constante do ar. Frenético. Outra vez uma parcela adicionada. Notar o que estava o meu redor já era difícil, só via um vulto alto, amarelado, que me atraia de forma tentadora. Quem podia negar? Já não era capaz de julgar por grande parte dos meus atos, eram dirigidos por esse motivo incessante que não me deixava em paz. Podia sair, abastecer sua alma de mais munições, mas logo retornava pronto para mais um gole. Tragos grandiosos novamente. Já não me fazia tão bem, a overdose de elementos estranhos nas fendas do meu corpo já exacerbavam a oportunidade que eu possuía de escapar. Deveria diminuir. Mas eu desejava? Já estava tão em mim que não conseguia mais retirar. Ou até conseguiria, porém, se tornava vício, queria aquela consequência de novo, aquilo que eu só sentia quando estava aqui. As pernas fraquejavam, os sons se confundiam ao longe, só ouvia uma voz, que bela melodia, meus ouvidos não se cansavam, queriam mais, não era novidade. O cheiro de arlequim roçando em minhas pernas, me envolvendo como olhos de furacões de percepções, não havia mais volta, a saída estava extinta há muito, somente você a minha volta, somente. Amor, olhares, contatos, delírios, arrepios, choques, gritos, felicidade, paixão, carinho, choque, ecstasy. Olhei para as frestas, corpos pulsavam, a energia frenética das carnes, esquecendo os seus espíritos, o que lhes interessava era o agora. Considerava o presente importante, embora só seria completo com aquele sentimento. Nada poderia ocupar seu espaço, é como se fosse um quebra-cabeça, cada peça é única e faz toda a diferença para a construção de seu conjunto. Isso era você pra mim. A vida pode continuar sem ouvir seu riso ao me ver e sem sentir seu calor ao te abraçar saudosamente. Mas, mais triste seria, as cores estariam batidas e as pinturas nos quadros estariam escoando ao ralo de becos sem saída. Indo a paredes pretas, grudados, a amargura do mundo, os choros dos amantes, as fotografias coladas e desgastadas com a tinta, encontram o chão com fendas profundas. Onde, se você realmente precisar, irá achar uma parte do meu amor, pois ela já é sua, só está à espera da sua procura. E isso só irá acontecer, quando realmente perceber, que eu sou o único alucinógeno para a sua lucidez.

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O anseio de viver

24 . novembro . 2014

Quando você percebe o que vale realmente a pena, a vida fica com uma cor melhor de ser apreciada. As pessoas ao seu lado conseguem ver o quão belo você é, sem temer inveja ou rancor. O fluir das águas o leva com as pessoas de bom coração, a leveza nos traz galhos para nos agarrarmos e não troncos para atrapalhar a passagem.
Passagem, passagem para um mundo outro que não faz você se sentir sozinha. Uma travessia que nos permeia de uma maneira melhor e mais limpa, um caminho para o adiante, sem pestanejar. O mundo lhe dá em retorno o que você planta. O que você lhe dá. As plantas não tem suas raízes marcadas, mas seus vieses de luz que nos acompanham lado a lado. E conforme eu olhava para as frestas no meio das árvores, eu conseguia me posicionar no lugar onde estava de maneira total. Sem medos de encontrar fantasmas do passado, sem temor de descobrir um ser dentro de mim que não esperava. A vida estava limpa, com a coragem de encarar as possíveis dores e os amores que trouxe até aqui. Mas que deixei, fui deixando no caminho com pedaços ensanguentados de paixões enlouquecidas, de atitudes impensadas. Pensar já fadigava, eu precisava seguir.
As pedras ficavam mais verdes conforme eu seguia. Que floresta fechada, eu parecia um ser envolto na semi luz, procurando por uma escuridão reveladora. Ou seria o contrário? Anseio por uma lareira na escuridão? Ambas seriam estranhas.
Então sigo, descalça, mas sem sentir a dor dos gravetos finos. Pareciam partes de mim postas ao chão. Cada pedaço daquela floresta me fazia lembrar de um momento. Aquela parecia uma câmera fotográfica, aquela que um dia você me fotografou à luz da manhã. Fotos sensuais de um tempo que me remontava aos primórdios, pureza inocente de uma garota na cidade grande. Grande em seus olhos, toques, sentimentos.
Continuava, começava a arfar. Demoraria tanto assim a chegar? Parecia loucura. Desastres mentais perpassavam nas flores. Tais flores, que um dia já foram nossas, na mesma da sala. Um museu de memórias que só iriam se mostrar diferentes se eu fosse diferente. Parei. Sentei em uma pedra mais achatada e menos úmida, levantei a cabeça ao alto e dei com uma enorme abertura entre as árvores. O que seria? Uma abertura aos céus? Aquela camada verde musgo tentando se apoderar do pequeno círculo azul resplandecente.
Aí estava a razão de tudo. A mudança não seria nos idiotas que havia encontrado no caminho, mas em mim mesma. Aquela imagem autônoma e inteligente era o reflexo da verdade que eu temia aceitar. Era mais fácil ser fraca, as pessoas teriam piedade. Não quero mais pedir piedade, nem a ninguém, nem a mim. Quero encarar os fatos como são, sem perder a beleza romântica. Mas tendo a capacidade analítica de notar o quão reais são e o quanto de fantasia os permeiam. Aí está o grande poder.
Aí estava a chave de tudo. Pode olhar ao outro como um ser diferente mesmo que ele fosse idêntico ao interior. Extraindo de cada um uma pequena bolha de verdade que poderia ser estourada a qualquer momento e ser engolida por quem quisesse absorver do outro. Sem filtros. Dores e amores, juntos.
Aí que estava o amor. O amor em poder olhar para você e não sentir mais nada. Nem ódio, nem rancor, nem mágoa. Você é apenas uma pessoa que passou e já se foi. As águas encarregaram de leva-lo. Não consegue ouvi-la? Elas rugem. O seu passo já não é mais próximo, é um dançar de bailarinas invisíveis que o levam a uma praia deserta e o fazem ver o valor real das coisas. Talvez você nunca o veja. Só vê quem está preparado para a hora chegar.
Aí que vão os passarinhos, lindos a piar em voltas das folhas. A procurar seu ninho e filhotes. Que casal lindo de araras. Como são lindas! Tais belezas são inexplicáveis aos olhos do mundo e aos meus. Apesar de não saber em qual categoria me enquadro. Continuo seguindo e seguindo.
Aí que me encontro olhando aquele círculo azul anil, a noite está chegando, mal percebi a hora passar. Devo ir. Os cachorros devem estar latindo.
Peguei minha mochila e senti como estava mais leve. Era mais fácil carregar o fardo da existência, era como saber governar seus pés mesmo que eles queiram ir para longe. Eles querem? Não mais. Não te procuram mais, não anseiam em ver seus trapos brancos perambulando por ai. Sua voz rouca não passa de uma voz surrada pelo seu passado, e pelo meu. Seu olhar não interfere mais na minha conjuntura. É como se fosse um olhar de um estranho. Sua presença da minha vida é a não presença. A não descrição do que pode ser e do que virá. Vou me desligando de você, aos poucos vou deixando os retalhos do que um dia foi um tecido a me cobrir à noite. Um dia nos olharemos como a dois estranhos, e tudo não passará de um simples apelo por uma conversa banal, aquelas fáticas tão banais. Não teremos remissões ao passado, nem ao futuro. Seremos apenas nós mesmos.
Será mesmo? Tanta coisa haverá mudado, que até nossa existência não será mais a de hoje. E, talvez por isso não haverá alguma similaridade de pensamentos ou gestos e, assim, tudo será mais natural. Leve. E então conseguirei olhar em teus olhos e ver quem realmente tu es e como se nada tivesse acontecido, tornar-se um conhecido a dar informações sobre o tempo e astrologia. Qual seu signo? Áries? Cazuza era ariano. Quem sabe não seremos bons amigos?
Achei a saída. Encontrei os cascalhos da vinda, eles não eram mais os mesmos. Mais vivos. Olhei em volta, o vilarejo parecia a me rodear. Tudo parecia mais bonito agora. Mais livre. Eu então percebi que podia ser eu mesma, sem me preocupar com o que os outros iriam achar. Aquele amor que faltava não era o amor eterno, mas sim, aquele que iria nascer aqui dentro de mim, como uma chama acesa ligada a uma alta voltagem. Voltagem de viver, amar e morrer, não por alguém, mas por mim mesma.

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