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O anseio de viver

24 . novembro . 2014

Quando você percebe o que vale realmente a pena, a vida fica com uma cor melhor de ser apreciada. As pessoas ao seu lado conseguem ver o quão belo você é, sem temer inveja ou rancor. O fluir das águas o leva com as pessoas de bom coração, a leveza nos traz galhos para nos agarrarmos e não troncos para atrapalhar a passagem.
Passagem, passagem para um mundo outro que não faz você se sentir sozinha. Uma travessia que nos permeia de uma maneira melhor e mais limpa, um caminho para o adiante, sem pestanejar. O mundo lhe dá em retorno o que você planta. O que você lhe dá. As plantas não tem suas raízes marcadas, mas seus vieses de luz que nos acompanham lado a lado. E conforme eu olhava para as frestas no meio das árvores, eu conseguia me posicionar no lugar onde estava de maneira total. Sem medos de encontrar fantasmas do passado, sem temor de descobrir um ser dentro de mim que não esperava. A vida estava limpa, com a coragem de encarar as possíveis dores e os amores que trouxe até aqui. Mas que deixei, fui deixando no caminho com pedaços ensanguentados de paixões enlouquecidas, de atitudes impensadas. Pensar já fadigava, eu precisava seguir.
As pedras ficavam mais verdes conforme eu seguia. Que floresta fechada, eu parecia um ser envolto na semi luz, procurando por uma escuridão reveladora. Ou seria o contrário? Anseio por uma lareira na escuridão? Ambas seriam estranhas.
Então sigo, descalça, mas sem sentir a dor dos gravetos finos. Pareciam partes de mim postas ao chão. Cada pedaço daquela floresta me fazia lembrar de um momento. Aquela parecia uma câmera fotográfica, aquela que um dia você me fotografou à luz da manhã. Fotos sensuais de um tempo que me remontava aos primórdios, pureza inocente de uma garota na cidade grande. Grande em seus olhos, toques, sentimentos.
Continuava, começava a arfar. Demoraria tanto assim a chegar? Parecia loucura. Desastres mentais perpassavam nas flores. Tais flores, que um dia já foram nossas, na mesma da sala. Um museu de memórias que só iriam se mostrar diferentes se eu fosse diferente. Parei. Sentei em uma pedra mais achatada e menos úmida, levantei a cabeça ao alto e dei com uma enorme abertura entre as árvores. O que seria? Uma abertura aos céus? Aquela camada verde musgo tentando se apoderar do pequeno círculo azul resplandecente.
Aí estava a razão de tudo. A mudança não seria nos idiotas que havia encontrado no caminho, mas em mim mesma. Aquela imagem autônoma e inteligente era o reflexo da verdade que eu temia aceitar. Era mais fácil ser fraca, as pessoas teriam piedade. Não quero mais pedir piedade, nem a ninguém, nem a mim. Quero encarar os fatos como são, sem perder a beleza romântica. Mas tendo a capacidade analítica de notar o quão reais são e o quanto de fantasia os permeiam. Aí está o grande poder.
Aí estava a chave de tudo. Pode olhar ao outro como um ser diferente mesmo que ele fosse idêntico ao interior. Extraindo de cada um uma pequena bolha de verdade que poderia ser estourada a qualquer momento e ser engolida por quem quisesse absorver do outro. Sem filtros. Dores e amores, juntos.
Aí que estava o amor. O amor em poder olhar para você e não sentir mais nada. Nem ódio, nem rancor, nem mágoa. Você é apenas uma pessoa que passou e já se foi. As águas encarregaram de leva-lo. Não consegue ouvi-la? Elas rugem. O seu passo já não é mais próximo, é um dançar de bailarinas invisíveis que o levam a uma praia deserta e o fazem ver o valor real das coisas. Talvez você nunca o veja. Só vê quem está preparado para a hora chegar.
Aí que vão os passarinhos, lindos a piar em voltas das folhas. A procurar seu ninho e filhotes. Que casal lindo de araras. Como são lindas! Tais belezas são inexplicáveis aos olhos do mundo e aos meus. Apesar de não saber em qual categoria me enquadro. Continuo seguindo e seguindo.
Aí que me encontro olhando aquele círculo azul anil, a noite está chegando, mal percebi a hora passar. Devo ir. Os cachorros devem estar latindo.
Peguei minha mochila e senti como estava mais leve. Era mais fácil carregar o fardo da existência, era como saber governar seus pés mesmo que eles queiram ir para longe. Eles querem? Não mais. Não te procuram mais, não anseiam em ver seus trapos brancos perambulando por ai. Sua voz rouca não passa de uma voz surrada pelo seu passado, e pelo meu. Seu olhar não interfere mais na minha conjuntura. É como se fosse um olhar de um estranho. Sua presença da minha vida é a não presença. A não descrição do que pode ser e do que virá. Vou me desligando de você, aos poucos vou deixando os retalhos do que um dia foi um tecido a me cobrir à noite. Um dia nos olharemos como a dois estranhos, e tudo não passará de um simples apelo por uma conversa banal, aquelas fáticas tão banais. Não teremos remissões ao passado, nem ao futuro. Seremos apenas nós mesmos.
Será mesmo? Tanta coisa haverá mudado, que até nossa existência não será mais a de hoje. E, talvez por isso não haverá alguma similaridade de pensamentos ou gestos e, assim, tudo será mais natural. Leve. E então conseguirei olhar em teus olhos e ver quem realmente tu es e como se nada tivesse acontecido, tornar-se um conhecido a dar informações sobre o tempo e astrologia. Qual seu signo? Áries? Cazuza era ariano. Quem sabe não seremos bons amigos?
Achei a saída. Encontrei os cascalhos da vinda, eles não eram mais os mesmos. Mais vivos. Olhei em volta, o vilarejo parecia a me rodear. Tudo parecia mais bonito agora. Mais livre. Eu então percebi que podia ser eu mesma, sem me preocupar com o que os outros iriam achar. Aquele amor que faltava não era o amor eterno, mas sim, aquele que iria nascer aqui dentro de mim, como uma chama acesa ligada a uma alta voltagem. Voltagem de viver, amar e morrer, não por alguém, mas por mim mesma.



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• Temos 4 comentários nesta postagem" •

Nessa, disse: - 24-11-2014 (19:39)

Oie
Uauu, adorei o texto, lindo e emocionante. Muito bem escrito, parabéns!!

Beijinhos


Clay, disse: - 25-11-2014 (08:05)

Fe, o texto ficou lindo *_*
Me identifiquei em várias situações
Beijos


Bianca, disse: - 25-11-2014 (19:05)

Adorei o texto, muito bom!
Beijos


Fernanda Ferrari, disse: - 01-12-2014 (23:49)

Oii, meninas! A tocar o coração de vocês, todas nós ficamos maiores, mais felizes, com mais amor! Obrigada pelo carinho, irei retribuir com textos toda semana para compartilharmos juntas nossas emoções da forma mais poética e, no fundo, otimista, como Clarice tentou ser a vida toda. Let’s try?


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