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A maré existencial

01 . junho . 2015

Me sinto num redemoinho de ser e não ser. Abro a janela do meu quarto, avisto o mar revolto. Mas nem é praia. São as ondas do horizonte trazendo o tsunami que quer me invadir. Fujo em um pavor, tento pegar as coisas mais importantes. Hesitação. Pego o celular ou o computador? Roupas, tênis, meus gatos, coloco tudo em uma mala para partir. Mas e eu? De onde me refugio? Deixo-me ali sem perceber. Saio correndo, arfando. Morro de medo de água. Imagina? Entrar no infinito do mar e ser englobada por toda aquela imensidão azul? O infinito me atrai. Percebo que estou fraca, não consigo andar. Minhas pernas doem, já não tenho mais força para carregar o que está em minha mala. O que havia trazido? Não era pra pesar assim. Fui olhar, computador, celular, livros. E os gatos? Tinha certeza que os tinha colocado ali. Será que fugiram? Mas pra onde? Será que ficaram em casa? Não posso ir sem eles. Corro mais ainda para não ser atingida pelas ondas. Preciso salvá-los.Chego em casa, reviro todos os cômodos. Nada deles. Já avisto a onda maior chegando. Será que devo encarar a morte? Se o momento chegou, talvez seja melhor morrer de maneira serena do que tentando fugir do fim. Se ele vai acontecer, por que o motivo da angústia? Deito no jardim para olhar o céu. Como me fascinava. Me sentia abrigada por todas aquelas nuvens. Calmas. Estavam lá como se não vissem a onda se aproximar. Devem ver, mas como sabem que não serão atingidas, estão tranquilas. Nada pode alterá-las. Nunca tive essa sensação. Nunca ser atingida..

Viro para fugir dos raios do sol e vejo meus dois gatos na árvore. Deitados no galho, juntos, dormindo. Eu, preocupada com eles, e eles tão bem. Me sinto mais aliviada. A árvore era bem alta, eles não seriam atingidos. Queria ter essa liberdade, de me alojar nas nuvens e não poder ser transmutada, ser alterada pelos seres que passam por mim. Tantas almas que encontrei e o amor em ausência em sua alta potência. Um descrédito no mundo como ele poderia ser. Se houvesse mais sinceridade, haveria mais amor, mais compaixão. Se bem que a compaixão é egoísta, prefiro o amor mesmo. Ele salvaria tudo. Poderia me salvar dessas ondas também?

Me encolho, seguro minhas pernas contra meu peito em sinal de oração ao universo. Me abriguem bem quando eu chegar. Estou mesmo cansada de ser. Acho melhor aceitar a partida. Muitas vezes, é mais saudável aceitar as perdas do que reivindica-las. Lutar contra si mesmo é uma perda de tempo total, é como se tentássemos lutar contra essa corrente de água que está por vir. Sua força e impetuosidade só manteriam o que fosse para ficar e nós, nós somos feitos para mudar. Para transformar, clamar o mundo e a nós mesmos. Diante desse vazio, clamar nosso espaço da terra.

Já vai anoitecendo. O sol ainda está lá. É a água invadindo o céu. Me angustio diante da escuridão. Ligo meu rádio, Cazuza canta fraquinho ao fundo, a energia já quase não funciona. Todo o amor que houver nessa vida e algum remédio que me dê alegria… Fecho os olhos e me imagino mergulhando no mar, uma finitude de existir diante da infinidade do oceano. Aperto no coração, não consigo respirar. Angústia de morrer, de deixar quem eu amava. Ninguém mais estava ali, só eu. Senti a liberdade nos meus braços a remar com a maré, me deixei inundar pelas águas violentas do tsunami, me deixei encher pela esperança de uma vida cheia de instantes, instantes eternos, fugidios, de puro amor.



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