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A lucidez do amor

01 . dezembro . 2014

Seu amor foi em mim como o efeito de uma bebida alcoólica. No começo, as minhas sensibilidades não foram afetadas, o humor continuava o mesmo, tive aquela falsa sensação de controle, não era tão grandioso a ponto de abalar meu equilíbrio, afetar minhas emoções, seria só mais um momento bom. As doses não pararam. Vibrações mornas subiam com o meu sangue ao circular pelo meu corpo, a percepção ficou um pouco fraca, estava mais suscetível a mudanças, a presença era mais marcante, começava a dominar a maneira como eu acordava, lembrava nos pensamentos na hora de olhar as estrelas. A gravidade? Caminhava como a brisa da manhã, sem pressa, curtindo o movimento de cada folha ao cair rapidamente dos galhos seivosos. Vontade de mais. Brios menos silenciosos, alguém me chamava como quem vai à luta, com toda a alma, pronta para enfrentar o que for, os sentimentos eram fortes demais pra serem ignoradas, por esse motivo valia. Prevalecia o cheiro, o anseio incessante de dançar, se jogar, sem medo de encarar um precipício à frente, ao som da música, alucinante. A visão já era obscura e o tato era muito sensível ao toque, pulsos intensificados pela substância tóxica que caminhava entre minhas curvas, entre as fendas do balanço constante do ar. Frenético. Outra vez uma parcela adicionada. Notar o que estava o meu redor já era difícil, só via um vulto alto, amarelado, que me atraia de forma tentadora. Quem podia negar? Já não era capaz de julgar por grande parte dos meus atos, eram dirigidos por esse motivo incessante que não me deixava em paz. Podia sair, abastecer sua alma de mais munições, mas logo retornava pronto para mais um gole. Tragos grandiosos novamente. Já não me fazia tão bem, a overdose de elementos estranhos nas fendas do meu corpo já exacerbavam a oportunidade que eu possuía de escapar. Deveria diminuir. Mas eu desejava? Já estava tão em mim que não conseguia mais retirar. Ou até conseguiria, porém, se tornava vício, queria aquela consequência de novo, aquilo que eu só sentia quando estava aqui. As pernas fraquejavam, os sons se confundiam ao longe, só ouvia uma voz, que bela melodia, meus ouvidos não se cansavam, queriam mais, não era novidade. O cheiro de arlequim roçando em minhas pernas, me envolvendo como olhos de furacões de percepções, não havia mais volta, a saída estava extinta há muito, somente você a minha volta, somente. Amor, olhares, contatos, delírios, arrepios, choques, gritos, felicidade, paixão, carinho, choque, ecstasy. Olhei para as frestas, corpos pulsavam, a energia frenética das carnes, esquecendo os seus espíritos, o que lhes interessava era o agora. Considerava o presente importante, embora só seria completo com aquele sentimento. Nada poderia ocupar seu espaço, é como se fosse um quebra-cabeça, cada peça é única e faz toda a diferença para a construção de seu conjunto. Isso era você pra mim. A vida pode continuar sem ouvir seu riso ao me ver e sem sentir seu calor ao te abraçar saudosamente. Mas, mais triste seria, as cores estariam batidas e as pinturas nos quadros estariam escoando ao ralo de becos sem saída. Indo a paredes pretas, grudados, a amargura do mundo, os choros dos amantes, as fotografias coladas e desgastadas com a tinta, encontram o chão com fendas profundas. Onde, se você realmente precisar, irá achar uma parte do meu amor, pois ela já é sua, só está à espera da sua procura. E isso só irá acontecer, quando realmente perceber, que eu sou o único alucinógeno para a sua lucidez.



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Vanessa Dias, disse: - 01-12-2014 (09:55)

Confesso que textos grandes às vezes me tiram a atenção meio a correria do dia a dia. Mas comecei a ler uma linha, duas… continuei lendo, quando vi, já estava na metade e muito interessada. O amor é bem assim, não é? Te pega nas sutilezas. “As pernas fraquejavam, os sons se confundiam ao longe, só ouvia uma voz, que bela melodia, meus ouvidos não se cansavam, queriam mais, não era novidade.”. Parabéns pelo texto!

http://www.saborabsinto.com.br


Fernanda, disse: - 01-12-2014 (23:45)

Saber que nossas palavras tocam outros corações nos faz sentir mais calmos, como se uma maré de paz viesse junto =] obrigada Vanessa! Espero que nosso elo por meio dos textos continue ?


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